Quando terminou a exibição do filme AGENTE SECRETO, do cineasta Kleber Mendonça, fui contido pela inibição para deixar de aplaudir de pé o filme. Estamos diante da melhor produção cinematográfica de todos os tempos do cinema brasileiro. Primeiro, o roteiro original mistura uma série de ingredientes da vida real, que valorizam a produção. Segundo, um ator tem que interpretar com absoluta autenticidade, dentro das rigorosas circunstâncias dramáticas. Nesse sentido, Wagner Moura, vivendo três papéis rigorosamente distintos, mostra sua capacidade de expressar um estado psicológico fiel à estrutura emocional e intelectual que se ajusta perfeitamente bem a ele, da história contada na tela. Terceiro, assim como nos filmes de Fellini, os personagens se parecem com aquelas pessoas que estamos acostumados a encontrar nos quatro cantos de qualquer cidade brasileira, basta prestar atenção. Quarto, o perfil desses personagens, perfeitamente ajustado à fala de cada um, o que torna o filme ainda mais próximo da realidade brasileira. Quinto, a narrativa binária, passado e presente, utilizada pelo cineasta, valoriza ainda mais a história contada na tela, o filme é mais atual do que nunca, mostrando os estigmas ao povo nordestino devido ao pensamento intolerante de parte da população do Sudeste e Sul do país. Para comprovar, o grupo Interfaces da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) observou que a xenofobia contra nordestinos nas redes sociais cresceu 821% na última eleição presidencial, em 2022, apontando padrões de discurso de ódio recorrentes. O filme também não deixa de homenagear o próprio cinema, a partir da presença de um projecionista pernambucano em cena. As cenas iniciais do filme procuram resgatar a lembrança dos ícones artísticos a partir dos anos 1970, palco dos acontecimentos relatados no filme. Na trilha sonora, um amplo painel musical com sucessos que marcaram este período, como não poderia deixar de ser, falando de música no cinema, essa lendária figura do grande mestre Ennio Morricone. Assim como Ian Fleming usou eventos reais para criar o seu personagem, o agente secreto James Bond, também o cineasta Kleber Mendonça usou o mesmo recurso. AGENTE SECRETO vai servir de orgulho para resgatar a boa imagem do cinema brasileiro, banindo qualquer complexo de vira-lata que possa ser cultivado.